sábado, 7 de setembro de 2024

Mudanças narrativas em Atos - Por que?

Por Jânsen Leiros

A narrativa no livro de Atos dos Apóstolos marca uma transição notável e estratégica a partir da conversão de Saulo de Tarso, que se torna o apóstolo Paulo. Essa mudança, que desloca o protagonismo da igreja de Jerusalém para as viagens missionárias do agora convertido Paulo, não se trata apenas de uma escolha literária do autor, Lucas. Muito mais do que isso, reflete um movimento divino intencional. A centralização da narrativa em Paulo e sua missão não apenas impulsiona a expansão geográfica do evangelho aos gentios, mas também serve como resposta à ameaça interna que rondava a igreja primitiva: o movimento judaizante. Este movimento buscava impor práticas legais judaicas, como a circuncisão, à fé cristã, o que poderia restringir o evangelho a uma seita judaica, sufocando sua universalidade.

Paulo emerge como o apóstolo da graça, um defensor fervoroso de que a salvação não vem pela observância da Lei mosaica, mas pela fé em Jesus Cristo. Essa transição narrativa de Pedro e dos demais apóstolos para a figura de Paulo não é um simples deslocamento de foco geográfico ou ministerial. Teologicamente, reflete uma ruptura fundamental com o judaísmo legalista e uma reafirmação da natureza inclusiva e universal do evangelho. A centralidade de Paulo em Atos tem como pano de fundo uma batalha teológica pela identidade do cristianismo: seria ele uma continuação do judaísmo, vinculado à Lei e suas práticas, ou seria uma nova aliança, marcada pela fé e graça, aberta a todos os povos?

O movimento judaizante, que ganha relevância em várias partes do Novo Testamento, é uma força significativa dentro da igreja primitiva. Sua influência é particularmente notada em Gálatas, onde Paulo confronta diretamente aqueles que tentavam impor a circuncisão e outras práticas da Lei aos gentios convertidos. O conflito é explícito: se a observância da Lei de Moisés fosse requerida para a salvação, a fé em Cristo seria diminuída, e o cristianismo se tornaria uma subcategoria do judaísmo. A centralidade de Paulo na segunda metade de Atos, aliada às suas epístolas, revela a luta teológica para garantir que o cristianismo emergisse como uma fé fundamentada na graça divina, e não nas obras da Lei. A sua teologia, exposta em cartas como Romanos e Gálatas, foi decisiva para libertar a mensagem cristã das amarras legalistas que ameaçavam a jovem igreja.

1. O Conflito com o Judaísmo e o Movimento Judaizante

Desde o início da missão cristã, havia tensões entre os que viam a fé em Cristo como um movimento inclusivo, destinado a todos os povos, e aqueles que acreditavam que o cristianismo deveria seguir fielmente as tradições judaicas. A circuncisão, símbolo central da aliança de Deus com Israel, tornou-se o ponto de discórdia entre esses dois grupos. Em Atos 15, encontramos o Concílio de Jerusalém, um momento decisivo em que a liderança da igreja primitiva, incluindo Pedro, Tiago e Paulo, debatem abertamente se os gentios convertidos deveriam ou não ser obrigados a observar a Lei de Moisés.

O resultado do concílio foi um marco de ruptura: a decisão de que os gentios não precisariam seguir a Lei para serem salvos, exceto por algumas poucas instruções com o objetivo de promover a convivência pacífica entre judeus e gentios (Atos 15:28-29). Esta decisão não foi apenas uma questão de conveniência pastoral; ela tinha implicações teológicas profundas. A igreja estava, naquele momento, traçando uma linha clara entre o que era essencial para a fé cristã — a graça e a fé em Jesus Cristo — e o que pertencia ao antigo pacto, agora superado. Esse evento esvazia, de forma definitiva, a tentativa de "judaizar" o cristianismo, e a missão de Paulo passa a ser vista como a encarnação dessa nova fase do evangelho.

2. A Teologia da Graça e a Inclusão Gentílica

A teologia de Paulo, como articulada principalmente em Romanos e Gálatas, enfatiza que a justificação vem pela fé em Cristo, e não pela observância da Lei. Em Romanos 3:28, ele afirma: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei". Essa doutrina é o cerne da missão de Paulo aos gentios e reflete uma compreensão revolucionária da relação entre a antiga e a nova aliança. A Lei, para Paulo, serviu como um tutor (paidagogos), um guia temporário até a chegada de Cristo (Gálatas 3:24-25). Com a vinda de Cristo, a função da Lei foi cumprida e superada pela fé.

Essa teologia da graça não era apenas uma ideia teórica; ela tinha implicações práticas significativas para a missão gentílica. Ao retirar a exigência da observância da Lei mosaica, o evangelho tornava-se acessível a todas as culturas e povos, sem a necessidade de uma conversão prévia ao judaísmo. Isso marca uma ruptura com o exclusivismo judaico e reflete a universalidade da mensagem cristã. O livro de Atos, ao centrar-se em Paulo e suas viagens, reforça essa teologia, mostrando que o evangelho transcende as barreiras étnicas e culturais. Paulo, em suas cartas, argumenta repetidamente que a salvação é uma dádiva divina, não uma recompensa por cumprir a Lei, e esse princípio está presente em toda sua missão.

3. Romanos 11: A Inclusão dos Judeus e Gentios no Plano de Deus

Um aspecto frequentemente negligenciado ao discutir a teologia de Paulo e a missão gentílica é sua visão sobre a inclusão dos judeus no plano de Deus, apresentada de forma detalhada em Romanos 11. Paulo não apenas combate o legalismo judaizante, mas também deixa claro que os judeus não estão fora do alcance da graça de Deus. Ele utiliza a metáfora da oliveira, onde os gentios são enxertados na raiz de Israel, mas adverte que os judeus podem ser novamente enxertados pela fé.

Essa passagem é crucial para entender que, ao mesmo tempo em que Paulo combate a imposição da Lei, ele não descarta a importância do povo judeu no plano de salvação. Para ele, o evangelho é uma mensagem de inclusão, tanto para judeus quanto para gentios, e a única condição é a fé em Jesus Cristo. Em Romanos 11:26, ele profetiza: "E assim todo o Israel será salvo". Isso reafirma que, mesmo com sua missão voltada principalmente aos gentios, Paulo não vê os judeus como excluídos da promessa divina. O evangelho, para ele, é inclusivo em todos os sentidos — seja para aqueles que viviam sob a Lei, seja para aqueles que nunca a conheceram.

4. O Concílio de Jerusalém como Ponto de Ruptura

O Concílio de Jerusalém, descrito em Atos 15, é um evento decisivo para entender a natureza do cristianismo nascente. Ao determinar que os gentios convertidos não precisavam seguir a Lei de Moisés, os líderes da igreja estabeleceram uma nova identidade para a fé cristã, que se distanciava das obrigações legais judaicas. Paulo e Barnabé, que haviam levado essa questão ao concílio, saem vitoriosos, pois a igreja decide pela liberdade dos gentios em relação à Lei. Contudo, o concílio não apenas favorece a expansão missionária; ele também reafirma que a salvação é um ato de graça, acessível a todos através de Jesus Cristo.

Essa ruptura com o judaísmo legalista é um marco teológico fundamental, e Paulo emerge como a figura central nessa batalha pela identidade da igreja. Atos, ao centrar-se em Paulo após o concílio, não só documenta a expansão do evangelho, mas também reforça a teologia da graça como o coração da fé cristã.

5. A Missão de Paulo como Libertação Teológica

A missão de Paulo não foi apenas geográfica; ela também foi profundamente teológica. Ao confrontar o movimento judaizante, Paulo libertou o cristianismo de se tornar uma seita judaica, resgatando a universalidade do evangelho. Sua insistência na salvação pela fé e não pelas obras da Lei é uma das razões pelas quais o cristianismo se espalhou além dos limites do judaísmo. Gálatas 5:1 é uma declaração clara desse compromisso: "Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permaneçam, pois, firmes e não se submetam novamente a um jugo de escravidão".

A teologia da graça é central não apenas para o cristianismo paulino, mas para a igreja universal. Ao destacar a figura de Paulo, Atos não apenas narra o crescimento da igreja, mas também reflete a importância de sua mensagem teológica: a liberdade em Cristo, desvinculada da necessidade de observância legal. A conversão de Saulo e sua subsequente missão são, portanto, não apenas um momento de mudança narrativa, mas também de libertação teológica que moldou o futuro da igreja cristã.


terça-feira, 10 de maio de 2022

Religiões - Caminhos e Descaminhos

 

Por Jânsen Leiros Jr.

 Caminhos

 Depois da pergunta por Deus, a questão sobre o que é a religião talvez seja a mais necessária investigação no caminho de encontrarmos o sentido da vida. Não que a religião seja esse sentido. Não mesmo. Porém, no processo de desvendarmos as motivações que levam o ser humano a exercitar-se na religião, inevitavelmente passamos tanto pelo terreno do significado da vida, quanto pelos mais instintivos impulsos da alma.

 A pergunta pelo que é religião, no entanto, não é facilmente respondida quando se pretende, por princípio, usarmos de honestidade e sobretudo responsabilidade. Muito pelo contrário. No caminho de desvendarmos todas as possibilidades, acabamos por transitar por becos escuros, ruas sem saídas e por labirintos difíceis de serem compreendidos. E por que isso? Porque as encruzilhadas são muitas, e nesta jornada o que difere verdade de equívoco é muito tênue. Isso se dá por diversos fatores que influenciam essa busca, indo desde cenários históricos em que se ambientam as pesquisas, até a própria experimentação religiosa, ou não, do pesquisador.

 Não é sem razão que, segundo Irênio Silveira Chaves em seu livro O que é Religião, ele se surpreende ao iniciar seu trabalho de pesquisa sobre o tema. O curioso na pesquisa que fiz foi descobrir que a grande maioria dos teólogos sistemáticos tradicionais nunca discutiu a respeito do fenômeno religioso em si, e poucos foram os que trataram o cristianismo como uma religião.

 Ou seja, um estudo honesto e responsável do que é a religião demanda coragem, ousadia e desprendimento. Coragem para seguir na tarefa, ainda que possíveis conclusões ameacem confrontar as próprias crenças. Ousadia para não recuar diante das ameaças veladas das conveniências. E por fim desprendimento, para saber renunciar a antigos trapos de convicções que se rasgarem mediante a verdade.

  Assim, será preciso despir-se de todas as lentes que temos diante dos olhos, tanto as atuais, quanto aquelas que já usamos um dia, que de um jeito ou de outro, ainda influenciam nossas percepções. E acreditem, essa não é uma tarefa simples, já que quase nunca nos percebemos olhando através dessa ou daquela lente, ou espelho. São muitos os fatores que nos influenciam o pensamento e as conclusões, podem apostar.

 Por essa razão, peço, sejam generosos e pacientes comigo. E se, porventura, não trouxer nada novo ou relevante a vocês, tomara consiga, provocar a vontade de refletir sobre o tema, para que busquem o conhecimento, e encontrem a liberdade.

 Espontaneidade legítima

 A maneira mais simples e pragmática de abordar o tema, é atribuir à religião um aspecto de instituição pensada para um determinado fim. Como se alguém ou grupo de pessoas, em um indefinido instante da história humana, instituísse a religião como um conjunto de ideias, rituais, e narrativas a respeito do sagrado, que não apenas apaziguasse a inquietude humana nessa busca, mas também a percebesse como um oportuno meio de manipulação dos adeptos.

 Não que a religião como a conhecemos não seja isso, ou não se preste a isso. Temos a noção exata que instituições religiosas mundo afora manipulam pessoas, e direcionam seus destinos conforme as pretensões e conveniências de seus líderes; quase sempre personagens muito eloquentes e convincentes. O despertar para um ato religioso, porém, é necessariamente anterior ao uso que já se fez ou se faz da religião. Esse despertamento é um ato espontâneo e totalmente livre, na direção daquilo que se entende inexoravelmente externo e superior a si mesmo. Podemos entender esse despertamento ou ato religioso primordial, como fruto de um espanto diante do confronto com uma realidade irrefutável, como faz o salmista em os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. O que é essa frase, senão uma afirmação nascida do espanto mediante uma realidade que grita diante de seus olhos perplexos?

 A verdade é que a religião está mais próxima de nossa experiência pessoal do que desejamos admitir. É mais do que uma representação de nossa visão de mundo. É também, e principalmente, o reflexo do que somos essencialmente, e por isso é quase indissociável à nossa existência, participando ativa ou passivamente de quase todos os empreendimentos humanos. Em sua expressão mais espontânea e sincera, a elaboração religiosa é o exercício de transcender a si mesmo para além da própria consciência, quer individual ou coletiva. É a tentativa de encontrar em um totalmente outro, respostas às inquietantes indagações da alma.

 Talvez por isso haja quem afirme que não há povo sem religião, por mais primitivo ou avançado que seja. Em todas as civilizações, em todo o tempo e em todo lugar, a religião sempre esteve presente, expressando em menor ou maior grau, aquilo que uma ou mais pessoas entendiam ou nominavam como manifestação do sagrado.

 Mas afinal, o que provoca o impulso para o que convencionamos chamar de ato religioso primordial? O que faz o ser humano sentir necessidade de sair de si mesmo, para buscar fora as razões existenciais, a causa e o sentido de tudo o mais em seu mundo conhecido?

sábado, 18 de dezembro de 2021

Percepções divergentes sobre fundamentos convergentes

Por Jânsen Leiros Jr.

             Há bem pouco tempo, fui apresentado a um grupo de católicos extremamente dedicado à tarefa de sustentar os princípios da fé cristã, empenhando-se a difundir conceitos e valores que, segundo eles, foram perdidos ao longo do tempo. Como os conheci pessoalmente e vivenciei de perto a devoção de seus integrantes, seria absurdo duvidar de suas excelentes intenções, e não reconhecer que a iniciativa vem em um momento histórico extremamente pertinente.

 Em que pese estarmos caminhando perigosamente para fundamentalismos de toda sorte e de diversas ideologias mundo afora, termos quem mantenha determinadas bandeiras erguidas como que a nos lembrar de onde somos, quais nossos valores, e no que é que acreditamos como sentido de existência, é importantíssimo. Isso pode corrigir desvios e renovar propósitos, o que é necessário à toda bem-sucedida caminhada. Por isso mesmo não posso deixar de ver com simpatia e por que não dizer alegria, pessoas sinceramente interessadas em se colocarem na brecha.

 Uma de suas linhas de atuação, é a publicação de textos, livros e coletâneas inspiradoras, com ensinamentos espargidos por renomados autores, quer sejam sacerdotes de consagrada teologia e didática, quer expoentes da sociedade civil, católicos, capazes de, apologeticamente, contribuírem para o cumprimento da vocação dessa organização.

 
              Em algumas dessas publicações, como não poderia deixar de ser, e talvez por isso não tenha me causado qualquer surpresa ou incômodo, há conteúdos que desafiam a teologia protestante e sua interpretação do texto bíblico, havendo até mesmo uma coleção intitulada Voltem para Casa, que obviamente tem como meta trazer de volta à fé católica, protestantes em geral que, bem-intencionados, apenas encontram-se equivocados em suas crenças e entendimentos teológicos. Também nisso não vejo qualquer problema. Todo grupo religioso tende a pretender, por vício de ofício, que sua pregação seja capaz de convencer quem quer que seja, a seguir pelo mesmo caminho que segue o grupo.

 Ora, no caminho de tal esforço é impossível que pontos divergentes entre nossas teologias, deixem de ganhar destaque servindo de mote para debates, argumentações e confrontos acalorados. De ambas as partes uma única convicção: a de que o lado mais convincente, arrastará leitores, ouvintes, e até mesmo plateias.

 É importante ressaltar à essa altura da introdução nossa sequência de estudos, que estamos apontando para divergências teológicas, não se fazendo qualquer juízo de valor quanto ao caráter das ideias. Ou seja, discorreremos sobre questões importantes, porém não ligadas diretamente à salvação, no que temos total convergência, a saber: que Jesus, o Cristo de Deus, é o nosso Salvador. E por que a ressalva? Porque é preciso deixar claro que todo debate à frente, todo tema sobre o qual iremos nos debruçar, será somente um importante, porém exclusivo exercício teológico, e não pretende fechar questão sobre quaisquer outras circunstâncias, que ao exercício elucubrativo e responsável não se restrinja.

Aos beligerantes de plantão e arengadores de primeira hora, não estou sendo camarada ou boa praça. Nem ao menos me aventurando a um hipotético concurso de virtude. Apenas pretendo manter em alto nível e gentil o processo salutar do confronto de ideias, sem que tais inevitáveis divergências nos coloquem em posições opostas e eventualmente deselegantes. Ao contrário, a ideia será sempre a de contribuir para um pensamento continuadamente apurado e direcionado às melhores conclusões. Afinal, um só é o Senhor de todas as coisas. E isso inclui a verdade absoluta. Já nós, tateamos, como quem enxerga por espelhos. Mas um dia seremos apresentados a tudo. Até mesmo à verdade. Quer estejamos perto ou longe dela.

 Assim sendo, a cada semana iremos apresentar um tema sobre o qual nos debruçaremos dedicadamente aqui mesmo no blog. Além do texto, teremos conteúdos em nosso canal, com participação de muitos companheiros de caminhada. Tenho certeza de que você vai se interessar!

 Particularmente desejo que todos façam excelente uso desse conteúdo que disponibilizaremos. Que seja oportunamente inspirador a todos, bem como inevitavelmente provocador, àqueles que incessantemente buscam crescer na graça e no conhecimento do nosso Deus.